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Por que caranguejos-eremitas estão “vestindo lixo” como moradia?

Caranguejos-eremitas trocam conchas por lixo plástico — falta de opção ou uma escolha inteligente?

Por que caranguejos-eremitas estão “vestindo lixo” como moradia? -

Imagem: Caranguejo-eremita vivendo em lixo plástico (Zuzanna Jagiello)

Os caranguejos-eremitas, conhecidos por sua prática de habitar conchas abandonadas, surpreenderam a comunidade científica ao adotarem uma abordagem inovadora em sua busca por abrigos. 

Em vez de confiar nas tradicionais conchas de caracóis, esses crustáceos têm sido flagrados ocupando objetos artificiais, como tampas de garrafas, partes de lâmpadas antigas e cacos de garrafas de vidro. 

Um estudo recente conduzido por pesquisadores poloneses analisou 386 imagens desses flagrantes, publicadas em redes sociais, para tentar entender por que os caranguejos-eremitas estão utilizando itens plásticos como refúgio (JAGIELLO, 2024).

Caranguejos-eremitas com conchas artificiais: (A) tampa plástica, (B) fragmento de bulbo de lâmpada, (C) tampa metálica com fragmento de garrafa de vidro.
Imagem: JAGIELLO, 2024.

A aparente mudança no comportamento destes animais levanta questões preocupantes sobre a influência da atividade humana no mundo natural. 

Enquanto a adaptação de caranguejos-eremitas a abrigos plásticos pode parecer uma resposta óbvia à escassez de conchas, é crucial considerar também uma série de fatores antes de tirar conclusões precipitadas.

Os caranguejos-eremitas, notáveis por sua versatilidade comportamental, diferem de outros crustáceos ao não cultivarem suas próprias conchas protetoras. 

Em vez disso, eles recorrem a conchas abandonadas por caracóis, utilizando-as como abrigo temporário e proteção contra ameaças. 

A escolha da concha é um processo cuidadoso, onde tamanho, tipo, condição e até mesmo a cor desempenham papéis cruciais na decisão do ermitão.

No entanto, o atual estudo revelou um fenômeno intrigante – uma parcela significativa de caranguejos-eremitas está optando por abrigos plásticos, mesmo com conchas naturais disponíveis. 

Dados do iEcology que reporta imagens geolocalizadas provenientes de plataformas de redes sociais confirma a ocorrência global de espécies de caranguejo eremita com conchas artificiais.
Imagem: JAGIELLO, 2024.

Essa mudança aparente levanta várias questões, sendo a primeira delas a extensão dessa adoção de lixo plástico. 

Isso porque, embora as imagens analisadas indiquem 326 casos de ermitões utilizando objetos plásticos, os pesquisadores alertam para possíveis distorções, já que as fotos foram carregadas por usuários em plataformas online, possivelmente privilegiando casos sensacionais.

No entanto, a razão por trás da preferência pelo plástico também permanece em debate. 

Enquanto a hipótese da falta de conchas naturais parece improvável, outra teoria levanta a possibilidade de que esses crustáceos prefiram o plástico por ser mais acessível e eficiente. 

Os pesquisadores destacam que o plástico pode ser mais leve do que conchas equivalentes, oferecendo a mesma proteção com menor custo energético para os caranguejos. 

Além disso, produtos químicos liberados pelo plástico podem atrair os ermitões, simulando o odor de alimentos.

Contudo, a utilização de plástico como abrigo também traz consigo potenciais desvantagens. 

Em comparação com conchas naturais, os resíduos plásticos tendem a ser mais brilhantes, tornando os caranguejos mais visíveis e, portanto, mais vulneráveis a predadores. 

Além disso, a exposição a microplásticos e compostos químicos pode alterar o comportamento dos ermitões, tornando-os menos seletivos quanto às conchas, menos hábeis em disputar por elas e até mesmo influenciando suas personalidades.

O fenômeno observado nos caranguejos-eremitas é apenas uma das muitas manifestações das alterações que os animais enfrentam devido às atividades humanas. 

A poluição plástica, amplamente documentada, é apenas um aspecto de uma gama mais ampla de impactos ambientais. 

Microplásticos, produtos farmacêuticos, luz, ruído e as mudanças climáticas também desempenham papéis na modificação do comportamento animal.

O que inicialmente pode parecer uma resposta simples à escassez de conchas revela-se um intricado quebra-cabeça, exigindo abordagens multidisciplinares para compreender completamente a dinâmica por trás dessa inovação comportamental. 

O comportamento dos caranguejos-eremitas tornou-se um indicador eloquente das complexas interações entre a vida selvagem e as mudanças ambientais, destacando a necessidade urgente de preservar e entender as delicadas redes que sustentam a vida em nosso planeta.

Vídeos

Caranguejos pensam que lixo plástico são conchas
Caranguejos pensam que lixo plástico são conchas.
Vídeo: Canal “Olhar digital” no Youtube.

Referências

JAGIELLO, Zuzanna; DYLEWSKI, Łukasz; SZULKIN, Marta. The plastic homes of hermit crabs in the Anthropocene. Science of The Total Environment, p. 168959, 2024.. Disponível em: <link>. Acesso em: 4 fev 2024.

Cite-nos

SANTOS, Fábio. Por que caranguejos-eremitas estão “vestindo lixo” como moradia?. Ciência Mundo, fev 2024. Disponível em: . Acesso em: 05 maio 2024.


Graduado em Sistemas de Informação pela FEUC-RJ e mestre em Representação de Conhecimento e Raciocínio pela UNIRIO. Fábio é editor e fundador do portal Ciência Mundo. É dedicado à produção de conteúdos relacionados a astronomia, física, arqueologia e inteligência artificial.